{"id":1878,"date":"2012-06-01T23:00:24","date_gmt":"2012-06-02T02:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ncep.ufpr.br\/?p=1878"},"modified":"2012-09-28T15:24:31","modified_gmt":"2012-09-28T18:24:31","slug":"coordenadora-dos-catadores-no-parana-revela-sua-trajetoria-de-lutas-pessoais-e-profissionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ncep.ufpr.br\/?p=1878","title":{"rendered":"Coordenadora estadual dos catadores revela sua trajet\u00f3ria de luta pessoal e profissional"},"content":{"rendered":"<div align=center><strong><span style=\"font-size: xx-small;\">Curitiba, 01 de junho de 2012, N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Popular da UFPR<\/span><\/strong><\/div>\n<hr \/>\n<p><strong><em>Reportagem<\/em><\/strong><em> de M\u00e1rio Teixeira (mario.helder10@gmail.com)<\/em><br \/>\n<strong><em>Fotografia<\/em><\/strong><em> de Ana Clara Tonocchi (claratonocchi@hotmail.com)<\/em><br \/>\n<strong><em>Pauta<\/em><\/strong><em> sugerida por Jos\u00e9 Geraldo S. Jr. (jota_geraldo@hotmail.com)<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/centralperiferica.files.wordpress.com\/2012\/07\/roselaine21.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"747\" \/><\/p>\n<div align=justify>\n<p>Com 28 anos de idade, Roselaine Mendes Ferreira \u00e9 integrante da coordena\u00e7\u00e3o estadual do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicl\u00e1veis (MNCR) e vice-presidente de uma ONG chamada Instituto Lixo e Cidadania (ILIX). Entrevistada pelo N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Popular (NCEP) em 25 de maio, ela exp\u00f4s quest\u00f5es referentes ao seu trabalho e ao daqueles que, em suas palavras, est\u00e3o \u201cretirando dos aterros, dos lix\u00f5es, reaproveitando materiais, pra que sejam extra\u00eddos menos recursos naturais\u201d. Frente a um gravador e a uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica durante quase meia hora, na cooperativa Catamare, em Curitiba, a jovem adulta mostrou muita disposi\u00e7\u00e3o, descrevendo experi\u00eancias que hoje fazem dela uma l\u00edder.<\/p>\n<p>O que come\u00e7ou como uma pauta abrangente, ligada ao dia-a-dia dos catadores na capital, acabou se unindo a uma hist\u00f3ria individual de perseveran\u00e7a na defesa dessa categoria. A trajet\u00f3ria profissional de Roselaine, cheia de \u201cidas e vindas na cata\u00e7\u00e3o&#8221;, remete \u00e0 sua inf\u00e2ncia, quando \u201ctinha tr\u00eas ou quatro anos\u201d e a m\u00e3e a \u201clevava no carrinho pra coletar no Centro\u201d. Hoje, ela pr\u00f3pria como m\u00e3e, cultiva uma rela\u00e7\u00e3o bem diferente com sua crian\u00e7a: \u201ctenho um filho de 7 anos e estou separada. Ent\u00e3o, quando chego em casa, tenho que ter tempo de dar aten\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o quer saber como foi o seu dia, se foi pesado, se voc\u00ea est\u00e1 cansada ou se n\u00e3o est\u00e1. Ele quer aten\u00e7\u00e3o. E tem que ajudar a fazer o dever de casa\u201d.<\/p>\n<p>Quando estava casada e gr\u00e1vida, aos 17 anos, para sobreviver, Roselaine teve de interromper um est\u00e1gio no Detran e seus estudos na s\u00e9tima s\u00e9rie: \u201cdois desempregados, dois adolescentes. Eu tive de voltar pra cata\u00e7\u00e3o\u201d. O retorno foi ao trabalho com o qual j\u00e1 estava familiarizada, para atravessadores. E essa realidade t\u00e3o desafiadora e t\u00e3o familiar s\u00f3 come\u00e7ou a mudar quando ela conheceu a Catamare, que passou a ser sua cooperativa e a apresentou ao Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicl\u00e1veis.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a no MNCR, \u00e0 qual foi eleita em 2010, para ela, foi consequ\u00eancia de \u201csempre participar das reuni\u00f5es\u201d do Movimento e \u201cser menos t\u00edmida pra abordar o catador na rua, ter desenvoltura pra conversar&#8221;. \u00c9 uma responsabilidade pol\u00edtica que est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 sua vice-presid\u00eancia no ILIX: \u201ca gente, como Movimento, n\u00e3o conseguia captar recurso financeiro para fazer esse tipo de articula\u00e7\u00e3o com os catadores. Ent\u00e3o, o Instituto faz a capta\u00e7\u00e3o&#8221;. Sobre manejar os dois cargos, acrescenta: &#8220;n\u00e3o tem muita dificuldade porque \u00e9 a conviv\u00eancia, \u00e9 o dia-a-dia, \u00e9 o que eu j\u00e1 fazia dentro da Catamare enquanto cooperada. Falar de reciclagem com a popula\u00e7\u00e3o pode ser bem mais dif\u00edcil. Conscientizar pra separar os res\u00edduos org\u00e2nicos dos inorg\u00e2nicos dentro de casa, pra ir \u00e0 associa\u00e7\u00e3o. Nesta semana, por exemplo, foi um cachorro morto dentro da coleta seletiva pra a Associa\u00e7\u00e3o de Recicladores de Pinhais. Ent\u00e3o, conscientizar \u00e9 o maior desafio\u201d.<\/p>\n<p>Nessa problem\u00e1tica, ela tamb\u00e9m inclui preconceitos que algumas pessoas carregam: \u201cacham que o catador enfeia a cidade. N\u00e3o acham que trabalha com material recicl\u00e1vel, ainda pensam que \u00e9 s\u00f3 lixo e que est\u00e1 atravancando rua por caminhar junto com os carros\u201d. Para combater essa ignor\u00e2ncia, a vice-presidente do ILIX ajuda a promover campanhas: \u201ca gente costuma dar muita palestra pra universidade mesmo. Ent\u00e3o, muitos dizem, antes de conhecer o trabalho, de visitar a associa\u00e7\u00e3o, de ver a gente triando, que tinham outra impress\u00e3o do catador. E, depois que conhecem o trabalho, come\u00e7am a respeitar\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa abordagem real, ela est\u00e1 envolvida com formas virtuais de conscientiza\u00e7\u00e3o. As p\u00e1ginas no Facebook do Movimento (<a href=\"http:\/\/fb.com\/catadores\" target=\"_blank\">fb.com\/catadores<\/a>) e do Instituto (<a href=\"http:\/\/fb.com\/instituto.lixoecidadania\" target=\"_blank\">fb.com\/instituto.lixoecidadania<\/a>), por exemplo, comunicam o lado humano das a\u00e7\u00f5es dos coletores em vez do lado estat\u00edstico que costuma aparecer na grande m\u00eddia. S\u00e3o canais alternativos que divulgam ideias como o encontro nacional de mulheres catadoras, programado para julho. Em Pontal do Paran\u00e1, o evento tem proposta educativa e motivacional &#8220;porque hoje, dentro da profiss\u00e3o, a maioria \u00e9 mulher que, ao mesmo tempo, \u00e9 pai e m\u00e3e. Em Colombo, por exemplo, tem uma associa\u00e7\u00e3o s\u00f3 com mulheres. Muitas vezes, abandonadas pelos maridos, espancadas, t\u00eam problema com \u00e1lcool, drogas etc&#8221;. Embora sejam quest\u00f5es complexas, garante: &#8220;a gente vai tentar trabalhar tudo isso no encontro&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora estadual do MNCR, n\u00e3o \u00e9 apenas o cidad\u00e3o que deve ficar atento \u00e0 import\u00e2ncia dos coletores. O poder p\u00fablico de alguns munic\u00edpios paranaenses tamb\u00e9m precisa estar mais engajado: \u201csimplesmente, falta estrutura. M\u00e3o-de-obra n\u00e3o \u00e9 problema, n\u00f3s sabemos administrar como ningu\u00e9m. Mas \u00e9 necess\u00e1rio ter galp\u00e3o, um barrac\u00e3o com prensa, balan\u00e7a, carrinho etc. Ainda hoje, a gente tem associa\u00e7\u00f5es como a Almirante Tamandar\u00e9, que n\u00e3o tem uma prensa. A prefeitura n\u00e3o d\u00e1 incentivo. Ent\u00e3o, isso prejudica o trabalho deles. Eles n\u00e3o conseguem fazer uma venda com valor melhor se esse material n\u00e3o estiver prensado\u201d. Trata-se de um descaso que contrasta com a gest\u00e3o curitibana: &#8220;aqui, a prefeitura tem o programa &#8216;Lixo que n\u00e3o \u00e9 lixo&#8217;, que destina os res\u00edduos pra as associa\u00e7\u00f5es. Acho que o mais importante \u00e9 que tenha a coleta no munic\u00edpio. Com isso, o catador n\u00e3o precisa do carrinho pra ir buscar esse material. O material chega at\u00e9 o barrac\u00e3o&#8221;. Gra\u00e7as a essa iniciativa de reaproveitamento, conforme dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, 22% de todo o lixo produzido atualmente na capital \u00e9 reciclado.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dessas demandas pelo Paran\u00e1, ela n\u00e3o desanima: \u201ceste trabalho que eu fa\u00e7o \u00e9 pra que as outras associa\u00e7\u00f5es cheguem no patamar no qual est\u00e1 a minha cooperativa. Quero que estejam ganhando melhor, que tenham uma estrutura melhor. \u00c9 isso que me motiva realmente\u201d. Parece ser a mesma motiva\u00e7\u00e3o que ela aplica \u00e0 vida pessoal, pois, mesmo morando \u201cna periferia, numa favela\u201d e tendo \u201cv\u00e1rias dificuldades\u201d por isso, \u00e9 assertiva: \u201cPretendo voltar a estudar este ano\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de ainda n\u00e3o ter completado o Ensino Fundamental, Roselaine considera a educa\u00e7\u00e3o um instrumento indispens\u00e1vel para coordenar a comunidade de catadores: \u201ca gente tem um grau de analfabetismo muito grande. Da\u00ed, muitos n\u00e3o sabem os direitos que t\u00eam. Realmente, quando trabalha com lixo, acha que faz parte dele. Ent\u00e3o, o que a gente busca \u00e9 fazer com que o catador entenda que hoje sua profiss\u00e3o \u00e9 reconhecida, que \u00e9 digno trabalhar dessa forma\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a jovem l\u00edder, o fato de v\u00e1rios coletores n\u00e3o conhecerem seus direitos n\u00e3o os impede de compreender a relev\u00e2ncia de seus servi\u00e7os: &#8220;o meio ambiente \u00e9 de todos, e o catador est\u00e1 fazendo esse trabalho pra todos. N\u00e3o est\u00e1 fazendo s\u00f3 por causa da renda dele. Hoje, ele tem essa consci\u00eancia ambiental tamb\u00e9m. Por isso, o catador n\u00e3o est\u00e1 atravancando rua. Da mesma forma que voc\u00ea est\u00e1 indo ou voltando do trabalho, ele tamb\u00e9m est\u00e1 indo ou voltando do trabalho dele. Por isso, trabalho como catadora por op\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Curitiba, 01 de junho de 2012, N\u00facleo de Comunica\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o Popular da UFPR Reportagem de M\u00e1rio Teixeira (mario.helder10@gmail.com) Fotografia de Ana Clara Tonocchi (claratonocchi@hotmail.com) Pauta sugerida por Jos\u00e9 Geraldo S. 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